Quem sou eu quando ninguém me olha
Há uma parte de mim que só existe quando ninguém está a ver, quando não há testemunhas, quando não há expectativas, quando não há uma necessidade de ser interessante, útil, forte ou desejável. É aí que descubro que muito do que eu chamava de identidade era, afinal, uma resposta ao olhar do outro, à espera do outro, à validação do outro. Quando ninguém me olha, não há espelhos, e sem espelhos, sobra o que é. Ou o que resta. E isso desinstala. Durante anos, organizei-me para fora, afinei-me para ser lido, escolhido, confirmado. Aprendi a existir em função do olhar, não da presença. E chamava a isso de ser. Hoje, percebo que era, muitas vezes, apenas para parecer bem. Quando ninguém me olha, não há palco, não há personagens, não há histórias. Há apenas silêncio. E o silêncio não valida, não devolve, não sustenta nenhuma imagem, mas, pelo contrário, obriga a ficar. Quem sou eu quando ninguém me olha? Não sou o que faço, nem o que resolvo, nem o que aguento. Sou aquilo que fica quando tudo isso cai. E, às vezes, o que fica é estranho, porque nunca me deixei existir sem utilidade. Há um desconforto subtil em não ser necessário, uma vertigem pequena em não ser chamado. É aí que percebo o quanto usei o olhar dos outros como chão. Hoje, ficar sem ninguém a olhar-me é uma aprendizagem. Ficar sem reflexo é uma reparação. Não é uma perda, mas uma reeducação. Estou a aprender a existir sem ser visto, a valorizar-me sem ser desejado, a permanecer sem ser escolhido, a ser sem estar a tentar ser. Quem sou eu quando ninguém me olha? Ainda não sei. E, pela primeira vez, isso já não me assusta.
José Micard Teixeira, via Almas Leves.





