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Para Refletir

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A cama dos pais

03 set 2021
Maria Teresa Guimarães

A cama dos pais tem um íman e cá para mim (ninguém me convence do contrário) tem uma magia soporífera, um misterioso pó de amor impregnado nas almofadas, que faz com que os filhos adormeçam imediatamente e que o pior dos pesadelos, o mais trepidante terror noturno, fuja a sete pés.

Na cama dos pais, o último refúgio dos medos, a paz é absoluta e total.

Ali chegam, levados por pais extenuados e vencidos, ou pelo seu próprio pé, transpirados e assustados, passarinhos a voar de noite aos encontrões pelos corredores da casa, até chegarem ao lugar dos lugares. Dois colos com lençóis macios e o cheiro dos progenitores. Caem que nem tordos a dormir, apaziguados.

Os pais fingem que se importam, na manhã seguinte: «Lá foste tu para a nossa cama! Quando é que aprendes a ultrapassar os medos e a dormir sozinho? Tens de crescer!», mas nem olham muito nos olhos dos filhos quando dizem estas coisas, com medo de que eles descubram que naquele breve regresso ao ninho, ao berço inicial, os pais se enchem de amor e ternura e também eles se confortam nas suas inquietações.

Um pescoço morno. Uma mãozinha gorducha no nosso cabelo. Um pé de regresso à costela da mãe. A respiração tranquila na fronha partilhada.

O desejo secreto de que o ninho fique assim para sempre. E que a manhã demore muito a chegar.

Que o misterioso pó de amor das almofadas preserve para sempre estas excursões noturnas de mimo que não são mais do que um inteligente prenúncio, de uma saudade imensa, dos melhores dias desta vida.”

Rita Ferro Rodrigues, Mala d’estórias.

 

 

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Quem é psicólogo(a) aí, levanta o dedo!

27 ago 2021
Maria Teresa Guimarães

É óbvio que todos que concluíram a faculdade de Psicologia, receberam seu diploma atestando o título de Psicólogo.

Alguns exercem a profissão, outros já exerceram e, por algum motivo, desistiram. Muitos, ainda, nem começaram.

E assim acontece em toda e qualquer escolha profissional. Ou nos identificamos e damos continuidade, ou descobrimos que temos outros caminhos mais empolgantes a trilhar.

Seja na Psicologia, seja em outra profissão, quando a escolha é verdadeira, a plena dedicação acontece naturalmente.

Nesses longos anos me dedicando à Psicologia Clínica, chego hoje aqui, certa de que fiz a escolha que tocou o meu coração. Confesso que não foi amor à primeira vista. Porém, quando me questionei sobre qual o motivo que me levou à essa escolha e qual era o meu sonho, encontrei a resposta voltando aos meus 13 anos de idade. Eu, já naquela época, sentia que algo em mim precisava mudar. Eu não estava satisfeita com o meu jeito de ser. Descobri então que existia um tal de Psicólogo que ajudava pessoas a serem mais felizes. Nesse momento a decisão já estava tomada: serei Psicóloga para me mudar. Doce ilusão! Como se isso bastasse…

Ainda assim, segui adiante com a minha escolha. E descobri que o meu sonho era poder ajudar pessoas a se conhecerem para serem mais felizes. E, para isso, eu precisaria caminhar junto, conhecendo-me para que eu também fosse mais feliz.

Eis aqui o caminho para você Psicólogo, Psicóloga, de qualquer área da Psicologia: Dedicação e investimento no conhecimento e no autoconhecimento. É imprescindível que a sua ajuda chegue às pessoas com o mínimo de ruído possível, com cada vez menos distorções e julgamentos.

Estar disponível para olhar nossos pontos cegos, nossas sombras e nossos inimigos internos permite abrir espaços dentro de nós que, por algum receio, não deixamos que sejam abertos. O medo de entrar em contato com vazios que, na verdade, já estavam presentes, impede o nosso enfrentamento.

Mas é justamente aí que aprendemos a preenchê-los com o melhor que também já vivia em nós e que estavam adormecidos: nossos talentos, nossas potencialidades, nossa verdade essencial.

É um caminho árduo e ao mesmo tempo um caminho de luz. Para mim, é o caminho que me deixa feliz.

Felicidade para você!

Maria Teresa Guimarães.

 

 

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Cuidar da Paz

20 ago 2021
Maria Teresa Guimarães

…Uma terapia para a paz, portanto, solicita uma dimensão iniciática, como a proposta por Graf-Durckheim, que possibilite um abrir passagem para as trilhas interiores que, do ego, possam nos conduzir ao Self, do conhecido ao desconhecido, do finito ao Infinito, para que o dom da Essência se manifeste na existência, aberta a transcendência. Nesta perspectiva evolutiva, o humano é considerado um projeto inacabado, um germe de plenitude clamando por investimentos, para que floresça plenamente, através do processo da individuação. Pelo cultivo de uma ecologia do Ser, a paz poderá ser conquistada e irradiada para a ecologia social e ambiental…

Roberto Crema

 

 

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Os Agostos

13 ago 2021
Maria Teresa Guimarães

Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera!

Lembro-me bem. Foi quando julho se foi, que um vento mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas deixadas pelo outono, me disse algumas verdades. Convenceu-me de que o céu começaria a apresentar metamorfoses avermelhadas. Que a poeira levantada por ele daria lições de que as coisas nem sempre ficam no mesmo lugar e que é preciso aceitar que a poeira só assenta depois que os redemoinhos se vão.

Foi quando julho se foi que a minha solidão me convidou para uma conversa. E me contou de tempo de esperas. E me disse que o barulho das árvores tinha algo a dizer sobre aceitação. E eu fiquei pensando como elas, as árvores, aceitam as estações que, se as estremecem, também lhes florescem os galhos. Mas tudo a seu tempo. Foi em agosto que descobri que os cachorros loucos são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento. São nossos estremecimentos particulares que a nossa rigidez de certezas não nos permite encarar.

O mês de agosto tem muito a ensinar. Porque agosto é mês jardineiro, é dentro dele, berço do inverno, que as sementes dormem. Aguardam seu tempo de brotar. Agosto é guardador da boa-nova, preparador de flores. Agosto é quando Deus deixa a natureza traduzir visivelmente o tempo das mutações.

Mude, diz agosto, em seu recado de sementes. Aceite, diz agosto, com seu jeito frio de vento que levanta poeira e a faz avermelhar o céu. Compartilhe, diz agosto. Agasalhos, sopas quentinhas, cafés com chocolate, abraços mais apertados – eles também aquecem a alma e aninham o corpo. Distribua mais afetos, que inverno é acolhimento, é tempo de preparar setembro. E, de setembro, todos sabemos o que esperar. Esperamos a arrebentação das cores, que com seus mais variados nomes vêm em forma de flores.

Vamos apreciar agosto, recebê-lo com o espanto feliz de quem não desafia ventos. Que ele desarrume e espalhe suas folhas e levante suas poeiras.

Aceite as esperas, mas coloque floreiras na janela.

Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera!

Miryan Lucy de Rezende, escritora e educadora infantil.

 

 

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Paiêêêêêêêêêê!!!!!!

06 ago 2021
Maria Teresa Guimarães

Pois é. Agora também é assim. Além de “manhêêêêêêêêê”! Já de algum tempo passamos a ouvir o “paiêêêêêêê”!

Tive o privilégio de ter tido um pai bastante presente. Nada a reclamar. Meu pai não veio com defeito. Alguns arranhõezinhos de fábrica, mas nada que impedisse a nossa boa convivência. Atenção, afeto, cuidado e muito amor, sempre presentes. Claro que também tinha os momentos das broncas, mas que eram esquecidos no instante seguinte. Sem mágoas, rancor, zangas que durassem mais de alguns minutos. Para ele, era perda de tempo fincar pé nas discussões.

E é isso que tenho observado ao longo dos últimos tempos. Cada vez mais a participação dos pais na vida de seus filhos. Reuniões da escola, idas a médicos, levando ou buscando no colégio, cuidando da alimentação, saídas para diversão, passeios, viagens. Pais cada vez mais presentes. Parabéns!

E que seja respeitado o jeito próprio de ser pai. Mamães, não atrapalhem, acreditando que só vocês sabem cuidar dos filhotes. Os papais também sabem. Confiem! Apenas o fazem de um outro jeito. Talvez mais displicentes, relaxados, liberais, menos atentos ao que, para nós, mamães, é de fundamental importância. Pais são mais leves, menos preocupados, confiam na capacidade do filho de se virar. Talvez tenham mais confiança na vida.

Algumas passagens da minha infância, que me faziam achar meu pai mais legal que minha mãe, sempre estavam ligadas a situações com menos regras, mais transgressoras, ousadas, que tornavam os momentos mais divertidos. E, o mais legal, os segredos dessas coisas inadmissíveis ao olhar de mamãe. Cumplicidade que era comunicada pelo olhar, pelo sorriso disfarçado, por uma piscadela de “ok, entendi”. Cúmplices até… Foi assim.

E nesse Dia dos Papais, os de ontem, de hoje e de amanhã, eu desejo mais e mais afeto, carinho, amor, respeito e leveza no convívio com os filhos, com as filhas, com a família. Nunca esquecendo de preservar tempo e espaço para acolher o que contribui para relações mais verdadeiras, leais e amorosas: o respeito por si próprio!

Os filhotes agradecem.

Obrigada pai!

Maria Teresa Guimarães

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Sobre renascer para a liberdade

30 jul 2021
Maria Teresa Guimarães

Voz ao verbo 160 – Ancestrais

Quantas gerações dormem dentro de um sonho?
Seus bisavós, avós, seus pais?
Às vezes são tantas, que nem você desperta mais
Mas um sonho não é um bastão de frustrações hereditárias
Por mais que hajam opiniões contrárias
Basta que uma pessoa seja a favor de fazê-lo acontecer:
Sim, você.

Pensa nessa vida como se fosse uma viagem
Nossos ancestrais nos deram a passagem
Mas ninguém pode viajar no lugar de alguém

Quem nunca escutou frases como:
Sempre foi assim na nossa família,
Isso não está no nosso sangue, não é pra gente
Nem tente, porque ser realizado não é nossa realidade
Tenha vontade, mas tenha mais limites.

Eu diria, respeite essas opiniões, mas não acredite

São escolhas, existe uma diferença
Entre quem diz que sabe o caminho e quem caminha
Repito, respeite: cada um fez o que pôde
Com as possibilidades que tinha

Por isso não existe culpa
O que nos deixa estagnados
É viver olhando pra trás procurando culpados
Aquele que é capaz de olhar o passado
E agradecer, já entendeu:
Por mais parecidos que sejam os caminhos
Cada um tem que fazer o seu

Os que vieram primeiro nos deram a chance
De aprender até como erros
Honrar as antigas gerações
É cortar o cordão umbilical das frustrações

Isso é dar à luz à própria vida
É renascer pra liberdade
Assumir a responsabilidade do seu sonho
É escolher sua realidade.

Allan Dias Castro.

 

 

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Contradança

23 jul 2021
Maria Teresa Guimarães

Bem antes de te conhecer, eu já possuía
expectativas e imagens essenciais;
sem fundamento em crenças, ideologias,
eu já sabia que o especial, na vida,
se o houvesse (e haveria!),
viria dali; encontro ou reencontro,
em uma curva deste tempo, em algum ponto
onde o impulso pueril das fantasias
não estava mais.

Não te buscava: buscava paz e sentido,
e era o que também buscavas, e algo mais.
Da infância como bailarina, eu te trazia,
e já sabia, com o faro de menina,
que há que achar o passo e o ritmo da vida,
e executá-lo com beleza e maestria.

Munida com minha intuição e tua certeza,
Desde este então, temos bailado e bailado,
honrando o pacto entre nós, nossa ousadia,
que, um dia, por alguém, nos foi atribuída,
de circular em espirais, quando houver vida,
dançando, ainda que a canção não toque mais.

Lúcia Helena Galvão.

 

 

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O gato e o escuro

16 jul 2021
Maria Teresa Guimarães

O escuro ainda chorava:
– Sou feio. Não há quem goste de mim.
– Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
– Então por que não figuro nem no arco-íris?
– Você figura no meu arco-íris.
– Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
– Os meninos não sabem que o escuro só existe dentro de nós.
– Não entendo, Dona Gata.
– Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com os nossos medos.

Mia Couto, O gato e o escuro

 

 

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Há tanto jeito de abraçar!

09 jul 2021
Maria Teresa Guimarães

O abraço que eu não posso
O abraço que eu não posso te dar.
Vai, enfim, na forma de oração;
De pensamento
Uma porção.
Assim, difícil de explicar.

Vai valente, pulsante,
Vai na corrente de ar.
Vai agora, neste instante,
Não dá pra segurar.

Há tanto jeito de abraçar:
O canto,
O verso,
O pão que eu faço,
Feliz em compartilhar.

O abraço que eu não posso te dar
Vai certeiro pelo ar.
Vai seguir teus passos
E ao teu lado sempre estar.

* * *

Sentimos falta do abraço.

É de nossa cultura a expressão afetuosa que envolve o toque, o contato físico. Sabe-se que o abraço carinhoso tem um poder sem igual, revitalizante e curador. Segundo alguns estudiosos, o abraço amplia nosso sentimento de autoaceitação, minimiza ansiedade e estresse, libera dopamina, o hormônio do humor e da motivação. Além disso, fortalece nossas conexões, possibilitando o exercício do perdão, apoio e amor. Em resumo, é essencial para nossas vidas.

Mas, o que fazer quando ele nos falta?

O que fazer quando, para preservar o outro, somos obrigados a nos manter afastados fisicamente? É aí que entra nossa criatividade e também o conhecimento da realidade do Espírito.
Há muitas outras formas de abraçar. A parte física do abraço é apenas uma pequena porção de uma expressão muito maior. Quem abraça não é o corpo. Abraçamos utilizando este corpo, que hoje existe e amanhã não existirá mais. Abraçamos com a alma, ou com o coração, utilizando dessa referência tão comum na esfera dos nossos sentimentos.

Quando oramos por alguém, com sinceridade, estamos abraçando. Quando telefonamos para saber como o outro está, oferecendo alguns minutos para ouvir, doando nosso sorriso, nosso ombro amigo, estamos abraçando. Quando fazemos uma gentileza, alguma produção própria com a qual presenteamos as pessoas, estamos igualmente abraçando. Quando, finalmente, abrimos nosso coração, proferindo doces palavras, destacando qualidades, expressando nossa admiração, nosso amor a alguém, estamos lhe dando um forte e poderoso abraço.

Assim, não nos preocupemos em demasia pela falta do contato físico temporal. Encontremos outras formas de nos relacionarmos. Continuemos doando o abraço, o carinho, o interesse, de diferentes formas. Alguns escrevem poemas expressando seu amor. Outros alimentam e cozinham algo de especial, pensando no próximo. Alguns enviam seu canto para consolar. Há aqueles que oram, enviando o abraço dos fluidos invisíveis que revigoram tanto aquele que oferece quanto aquele que recebe.

Lembremos que somos Espírito e temos um corpo. Quem abraça é o Espírito. Então, pensemos de que forma podemos abraçar à distância. Cada um encontrará o seu jeitinho, a sua maneira, dentro de suas possibilidades infinitas de Espírito, neste Universo onde tudo está conectado.

Estamos mais próximos uns dos outros do que imaginamos. A conexão entre a criatura e o Criador é de nossa essência. Também o laço existente entre todos os filhos do Grande Pai.

Redação do Momento Espírita, 19/11/2020.

 

 

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A minha Lua

02 jul 2021
Maria Teresa Guimarães

A lua me inspira, me acalma e torna a minha respiração mais fluida. Na sua presença o ar é mais puro, tudo parece acontecer com naturalidade num ritmo compassado.

A mente se aquieta, silencia e aguarda.

O coração toma o lugar da visão e nada mais é visto como ameaçador. A tensão é dissipada dando lugar à presença do sentimento de fé na vida.

Olho agora para a lua e a entrega acontece.

Bem-vinda!

Maria Teresa Guimarães

 

 

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Em tempos de ternura minguada

25 jun 2021
Maria Teresa Guimarães

Ser sensível nesse mundo requer muita coragem. Todo dia. Esse jeito de ouvir além dos olhos, de ver além dos ouvidos, de sentir a textura do sentimento alheio tão clara no próprio coração e tantas vezes até doer ou sorrir junto com toda sinceridade. Essa intensidade toda em tempo de ternura minguada. Esse amor tão vívido em terra em que a maioria parece se assustar mais com o afeto do que com a indelicadeza. Esse cuidado espontâneo com os outros. Essa vontade tão pura de que ninguém sofra por nada. Essa saudade, que às vezes faz a alma marejar, de um lugar que não se sabe onde é, mas que existe, é claro que existe. Essa vontade de espalhar buquês de sorrisos por aí, porque os sensíveis, por mais que chorem de vez em quando, não deixam adormecer a ideia de um mundo que possa acordar sorrindo. Pra toda gente. Pra todo ser. Pra toda vida.

Eu até já tentei ser diferente, por medo de doer, mas não tem jeito: só consigo ser igual a mim.

Ana Jácomo

 

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Apenas brincando…

18 jun 2021
Maria Teresa Guimarães

Quando me virem a montar blocos
A construir casas, prédios, cidades
Não digam que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender sobre o equilíbrio e as formas
Um dia, posso vir a ser engenheiro ou arquiteto.

Quando me virem a fantasiar
A fazer comidinha, a cuidar das bonecas
Não pensem que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a cuidar de mim e dos outros
Um dia, posso vir a ser mãe ou pai.

Quando me virem coberto de tinta
Ou a pintar, ou a esculpir e a moldar barro
Não digam que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a expressar-me e a criar
Um dia, posso vir a ser artista ou inventor.

Quando me virem sentado
A ler para uma plateia imaginária
Não riam e achem que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a comunicar e a interpretar
Um dia, posso vir a ser professor ou ator.

Quando me virem à procura de insetos no mato
Ou a encher os meus bolsos com bugigangas
Não achem que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a prestar atenção e a explorar
Um dia, posso vir a ser cientista.

Quando me virem mergulhado num puzzle
Ou nalgum jogo da escola
Não pensem que perco tempo a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a resolver problemas e a concentrar-me
Um dia posso vir a ser empresário.

Quando me virem a cozinhar e a provar comida
Não achem, porque estou a gostar, que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a seguir as instruções e a descobrir as diferenças
Um dia, posso vir a ser Chefe.

Quando me virem a pular, a saltar a correr e a movimentar-me
Não digam que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender como funciona o meu corpo
Um dia posso vir a ser médico, enfermeiro ou atleta.

Quando me perguntarem o que fiz hoje na escola
E eu disser que brinquei
Não me entendam mal
Porque a brincar, estou a aprender.
A aprender a trabalhar com prazer e eficiência
Estou a preparar-me para o futuro.
Hoje, sou criança e o meu trabalho é brincar.

Anita Wadley.

Ilustração: Vector Vectors by Vecteezy

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Namorar! Êta coisa boa!

11 jun 2021
Maria Teresa Guimarães

Namorar é querer estar junto.
Junto daquela pessoa que faz o friozinho na barriga chegar, que faz o coração palpitar, que traz colorido e gosto de quero mais. E do marasmo nos faz afastar.

Ahhhh, namorar é suspirar!
Namorar é trocar brilho no olhar, é se deixar levar sem saber pra onde. É passear nas nuvens. É calor em dias frios, é frio nos dias quentes. Namorar é destemperar.

Ahhhh, Namorar é respirar!
Namorar é chegar perto com doçura e tesão. Namorar tem fogo, tem paixão. Tem beijo, abraço e amasso. Tem afago no coração.

Ahhhh, Namorar é se emocionar!
Namorar é rir por nada, é chorar por tudo. É acalmar. É amar.

Namorar é bagunçar as regras.
Namorar é soltar.

Feliz mais um Dia de Namorar!

Maria Teresa Guimarães.

 

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Deus, natureza e o homem

04 jun 2021
Maria Teresa Guimarães

Lembro-me de uma maravilhosa palestra proferida por Daisetz Suzuki, em Ascona, Suíça… e lá estava aquele grupo de europeus na plateia e um japonês, um filósofo Zen – tinha cerca de noventa e um anos na época. Ele ficou em pé, conservando as mãos ao lado do corpo, e olhando para a plateia dizia:

“A natureza contra Deus. Deus contra a natureza. A natureza contra o homem. O homem contra a natureza. O homem contra Deus. Deus contra o homem. Religião muito engraçada!”.

Joseph Campbell em A Jornada do Herói.

 

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Laços

28 maio 2021
Maria Teresa Guimarães

Quando enlaço com o cipó as partes de bambus, para fixá-los na cerca, jamais consigo pensar. Apenas sinto intensa excitação, um certo gozo de harmonia grande, algo que às vezes me faz chorar de alegria: eu sou o laço. E o laço está certo, tão certo como flor… Ao juntar dois bambus maduros, o laço apenas os abraça com pouca pressão, pois eles não têm excessos de viço para se evaporar, e quase não diminuirá, com o tempo, a força da junção.

Se são secos os dois, o laço parece tênue e fraco; mas não é. Não são necessárias fortes pressões para mantê-los juntos, pois os dois não têm mais como se transformarem.

Com dois verdes, o laço os aperta um ao outro com paixão e envolvência; abraçados fortemente, gemem no gozo de união tensa e estalam, rangem de prazer sob o sol, o vento e a chuva. Eles querem… e o laço tem de ser forte. Se for frouxo eles logo se separam, caindo da cerca assim que o viço começar a desaparecer.

Floro Freitas de Andrade, O Fazedor de Cercas.

 

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