De pé
Por vezes, vejo-me obrigado a ter deitados alguns livros nas minhas estantes. A posição está longe do ideal.
Para tirar um livro, tenho frequentemente de tirar uma pilha deles.
Os livros nascem das árvores, e, como elas, gostam de verticalidade: estar em pé, de pé. São objetos verticais.
Aliás, como a vida. Descansamos deitados, mas vivemos contrariando a gravidade, numa luta constante. Ser vertical é um desígnio, enquanto desmaiar, cair, morrer, não exige esforço, e simplesmente deixar que a Natureza faça o seu trabalho de esmaecimento, de transformar catedrais em areia e nunca o contrário.
Mas nós, animais, árvores e livros, tendemos a contrariar esse destino: erguemo-nos. Levantamo-nos. Esse movimento quotidiano, tão simples, define a vida.
E, seguindo o exemplo dos livros nas estantes, devíamos exaltar esse permanecer em pé, lado a lado.
Afonso Cruz, O Vício dos Livros II, via Mala d’estórias.





