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Bem antes de te conhecer, eu já possuía
expectativas e imagens essenciais;
sem fundamento em crenças, ideologias,
eu já sabia que o especial, na vida,
se o houvesse (e haveria!),
viria dali; encontro ou reencontro,
em uma curva deste tempo, em algum ponto
onde o impulso pueril das fantasias
não estava mais.

Não te buscava: buscava paz e sentido,
e era o que também buscavas, e algo mais.
Da infância como bailarina, eu te trazia,
e já sabia, com o faro de menina,
que há que achar o passo e o ritmo da vida,
e executá-lo com beleza e maestria.

Munida com minha intuição e tua certeza,
Desde este então, temos bailado e bailado,
honrando o pacto entre nós, nossa ousadia,
que, um dia, por alguém, nos foi atribuída,
de circular em espirais, quando houver vida,
dançando, ainda que a canção não toque mais.

Lúcia Helena Galvão.

 

 

O escuro ainda chorava:
– Sou feio. Não há quem goste de mim.
– Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
– Então por que não figuro nem no arco-íris?
– Você figura no meu arco-íris.
– Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
– Os meninos não sabem que o escuro só existe dentro de nós.
– Não entendo, Dona Gata.
– Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com os nossos medos.

Mia Couto, O gato e o escuro

 

 

O abraço que eu não posso
O abraço que eu não posso te dar.
Vai, enfim, na forma de oração;
De pensamento
Uma porção.
Assim, difícil de explicar.

Vai valente, pulsante,
Vai na corrente de ar.
Vai agora, neste instante,
Não dá pra segurar.

Há tanto jeito de abraçar:
O canto,
O verso,
O pão que eu faço,
Feliz em compartilhar.

O abraço que eu não posso te dar
Vai certeiro pelo ar.
Vai seguir teus passos
E ao teu lado sempre estar.

* * *

Sentimos falta do abraço.

É de nossa cultura a expressão afetuosa que envolve o toque, o contato físico. Sabe-se que o abraço carinhoso tem um poder sem igual, revitalizante e curador. Segundo alguns estudiosos, o abraço amplia nosso sentimento de autoaceitação, minimiza ansiedade e estresse, libera dopamina, o hormônio do humor e da motivação. Além disso, fortalece nossas conexões, possibilitando o exercício do perdão, apoio e amor. Em resumo, é essencial para nossas vidas.

Mas, o que fazer quando ele nos falta?

O que fazer quando, para preservar o outro, somos obrigados a nos manter afastados fisicamente? É aí que entra nossa criatividade e também o conhecimento da realidade do Espírito.
Há muitas outras formas de abraçar. A parte física do abraço é apenas uma pequena porção de uma expressão muito maior. Quem abraça não é o corpo. Abraçamos utilizando este corpo, que hoje existe e amanhã não existirá mais. Abraçamos com a alma, ou com o coração, utilizando dessa referência tão comum na esfera dos nossos sentimentos.

Quando oramos por alguém, com sinceridade, estamos abraçando. Quando telefonamos para saber como o outro está, oferecendo alguns minutos para ouvir, doando nosso sorriso, nosso ombro amigo, estamos abraçando. Quando fazemos uma gentileza, alguma produção própria com a qual presenteamos as pessoas, estamos igualmente abraçando. Quando, finalmente, abrimos nosso coração, proferindo doces palavras, destacando qualidades, expressando nossa admiração, nosso amor a alguém, estamos lhe dando um forte e poderoso abraço.

Assim, não nos preocupemos em demasia pela falta do contato físico temporal. Encontremos outras formas de nos relacionarmos. Continuemos doando o abraço, o carinho, o interesse, de diferentes formas. Alguns escrevem poemas expressando seu amor. Outros alimentam e cozinham algo de especial, pensando no próximo. Alguns enviam seu canto para consolar. Há aqueles que oram, enviando o abraço dos fluidos invisíveis que revigoram tanto aquele que oferece quanto aquele que recebe.

Lembremos que somos Espírito e temos um corpo. Quem abraça é o Espírito. Então, pensemos de que forma podemos abraçar à distância. Cada um encontrará o seu jeitinho, a sua maneira, dentro de suas possibilidades infinitas de Espírito, neste Universo onde tudo está conectado.

Estamos mais próximos uns dos outros do que imaginamos. A conexão entre a criatura e o Criador é de nossa essência. Também o laço existente entre todos os filhos do Grande Pai.

Redação do Momento Espírita, 19/11/2020.

 

 

A lua me inspira, me acalma e torna a minha respiração mais fluida. Na sua presença o ar é mais puro, tudo parece acontecer com naturalidade num ritmo compassado.

A mente se aquieta, silencia e aguarda.

O coração toma o lugar da visão e nada mais é visto como ameaçador. A tensão é dissipada dando lugar à presença do sentimento de fé na vida.

Olho agora para a lua e a entrega acontece.

Bem-vinda!

Maria Teresa Guimarães

 

 

Ser sensível nesse mundo requer muita coragem. Todo dia. Esse jeito de ouvir além dos olhos, de ver além dos ouvidos, de sentir a textura do sentimento alheio tão clara no próprio coração e tantas vezes até doer ou sorrir junto com toda sinceridade. Essa intensidade toda em tempo de ternura minguada. Esse amor tão vívido em terra em que a maioria parece se assustar mais com o afeto do que com a indelicadeza. Esse cuidado espontâneo com os outros. Essa vontade tão pura de que ninguém sofra por nada. Essa saudade, que às vezes faz a alma marejar, de um lugar que não se sabe onde é, mas que existe, é claro que existe. Essa vontade de espalhar buquês de sorrisos por aí, porque os sensíveis, por mais que chorem de vez em quando, não deixam adormecer a ideia de um mundo que possa acordar sorrindo. Pra toda gente. Pra todo ser. Pra toda vida.

Eu até já tentei ser diferente, por medo de doer, mas não tem jeito: só consigo ser igual a mim.

Ana Jácomo

 

Quando me virem a montar blocos
A construir casas, prédios, cidades
Não digam que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender sobre o equilíbrio e as formas
Um dia, posso vir a ser engenheiro ou arquiteto.

Quando me virem a fantasiar
A fazer comidinha, a cuidar das bonecas
Não pensem que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a cuidar de mim e dos outros
Um dia, posso vir a ser mãe ou pai.

Quando me virem coberto de tinta
Ou a pintar, ou a esculpir e a moldar barro
Não digam que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a expressar-me e a criar
Um dia, posso vir a ser artista ou inventor.

Quando me virem sentado
A ler para uma plateia imaginária
Não riam e achem que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a comunicar e a interpretar
Um dia, posso vir a ser professor ou ator.

Quando me virem à procura de insetos no mato
Ou a encher os meus bolsos com bugigangas
Não achem que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a prestar atenção e a explorar
Um dia, posso vir a ser cientista.

Quando me virem mergulhado num puzzle
Ou nalgum jogo da escola
Não pensem que perco tempo a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a resolver problemas e a concentrar-me
Um dia posso vir a ser empresário.

Quando me virem a cozinhar e a provar comida
Não achem, porque estou a gostar, que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a seguir as instruções e a descobrir as diferenças
Um dia, posso vir a ser Chefe.

Quando me virem a pular, a saltar a correr e a movimentar-me
Não digam que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender como funciona o meu corpo
Um dia posso vir a ser médico, enfermeiro ou atleta.

Quando me perguntarem o que fiz hoje na escola
E eu disser que brinquei
Não me entendam mal
Porque a brincar, estou a aprender.
A aprender a trabalhar com prazer e eficiência
Estou a preparar-me para o futuro.
Hoje, sou criança e o meu trabalho é brincar.

Anita Wadley.

Ilustração: Vector Vectors by Vecteezy

Namorar é querer estar junto.
Junto daquela pessoa que faz o friozinho na barriga chegar, que faz o coração palpitar, que traz colorido e gosto de quero mais. E do marasmo nos faz afastar.

Ahhhh, namorar é suspirar!
Namorar é trocar brilho no olhar, é se deixar levar sem saber pra onde. É passear nas nuvens. É calor em dias frios, é frio nos dias quentes. Namorar é destemperar.

Ahhhh, Namorar é respirar!
Namorar é chegar perto com doçura e tesão. Namorar tem fogo, tem paixão. Tem beijo, abraço e amasso. Tem afago no coração.

Ahhhh, Namorar é se emocionar!
Namorar é rir por nada, é chorar por tudo. É acalmar. É amar.

Namorar é bagunçar as regras.
Namorar é soltar.

Feliz mais um Dia de Namorar!

Maria Teresa Guimarães.

 

Lembro-me de uma maravilhosa palestra proferida por Daisetz Suzuki, em Ascona, Suíça… e lá estava aquele grupo de europeus na plateia e um japonês, um filósofo Zen – tinha cerca de noventa e um anos na época. Ele ficou em pé, conservando as mãos ao lado do corpo, e olhando para a plateia dizia:

“A natureza contra Deus. Deus contra a natureza. A natureza contra o homem. O homem contra a natureza. O homem contra Deus. Deus contra o homem. Religião muito engraçada!”.

Joseph Campbell em A Jornada do Herói.

 

Quando enlaço com o cipó as partes de bambus, para fixá-los na cerca, jamais consigo pensar. Apenas sinto intensa excitação, um certo gozo de harmonia grande, algo que às vezes me faz chorar de alegria: eu sou o laço. E o laço está certo, tão certo como flor… Ao juntar dois bambus maduros, o laço apenas os abraça com pouca pressão, pois eles não têm excessos de viço para se evaporar, e quase não diminuirá, com o tempo, a força da junção.

Se são secos os dois, o laço parece tênue e fraco; mas não é. Não são necessárias fortes pressões para mantê-los juntos, pois os dois não têm mais como se transformarem.

Com dois verdes, o laço os aperta um ao outro com paixão e envolvência; abraçados fortemente, gemem no gozo de união tensa e estalam, rangem de prazer sob o sol, o vento e a chuva. Eles querem… e o laço tem de ser forte. Se for frouxo eles logo se separam, caindo da cerca assim que o viço começar a desaparecer.

Floro Freitas de Andrade, O Fazedor de Cercas.

 

…Sempre ouvi isso, mas para mim soava como se a pessoa que recomenda à outra que fique bem está se eximindo de qualquer responsabilidade por aquela dali para frente. Isso porque me sugeria que enquanto estivéssemos juntos eu estaria bem, mas depois de nos separarmos, eu poderia ficar algo próximo de “por sua conta e risco, por isso trate de ficar bem”.

Minha mãe nunca me disse “fica bem”. As palavras dela ao se despedir de mim sempre foram: “Deus te proteja” ou “Cuide-se por mim”.

Há uma diferença enorme nestas duas formas de despedida. Vindo da minha mãe, eu sentia como se ela quisesse estar ao meu lado a todo momento. Não sendo possível, ela pedia a Deus que me protegesse e também que eu me cuidasse, para voltar inteira para os braços dela.

Inevitáveis comparações me acompanharam durante bastante tempo.

Minha mãe tinha se doado muito a mim. E eu ainda nem tinha a dimensão do quanto efetivamente. Tudo ainda estava se desvendando…

Jerusa Nina, O Piano.