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Mãe de Maio
Mãe do ano
Mãe do dia de ser e de não ser… mãe
Mãe de si, do filho, de você… de mim.

Mãe de sempre… desde lá…
Mãe de um tempo de ser
Mãe de acolher e de ser acolhida
Mãe que será… um dia.

Mãe da casa aberta pra vida
Mãe do céu, da terra, da natureza
Mãe que combina com cor
Mãe que se fecha na dor

Mãe que respira e inspira amor
Mãe que se recolhe no direito de não estar
Mãe no olhar adiante, distante…
Mãe na escuta gentil.

Mães dos abraços, das beijocas, dos cheiros, que protegem, que liberam, que cuidam e que deixam ir…

Feliz nossos dias!!!!!

Maria Teresa Guimarães.

Estava caminhando pela rua quando passei por uma mulher muito charmosa, e seu charme era consequência de diversas escolhas acertadas, a começar pelo cabelo. Um corte chanel repicado, rebelde, volumoso, e uma franja comprida e displicente que dava ao look um ar de acordei assim e saí pra rua, e deve ter acontecido mesmo, ela acordou e saiu pra rua sem nem se olhar no espelho antes, tinha um cabelo que não dava trabalho e a deixava com uma aparência moderna e jovial, mesmo com seus 40 e tantos. Pensei: adoro cabelo curto. Nas outras.

Como ela usava uma camiseta regata, vi que tinha uma grande tatuagem no braço. Era um desenho estilizado, parecia uma padronagem de tecido, não era uma frase, um bicho ou qualquer coisa distinguível – apenas um desenho abstrato que para ela, e só para ela, fazia todo o sentido e a personalizava num grau único. É provável que ela tivesse também tatoos mais delicadas atrás da nuca, no pulso ou no tornozelo, mas a do braço, imensa, era um ato de bravura. Era uma mulher tão colocada, tão escandalosamente ela mesma, que também me senti tudo isso pelo simples fato de apreciar nela o que não tenho a audácia de fazer em mim. Adoro tatuagens. Nos outros.

E ela carregava nas mãos uma jaqueta de couro vermelha. Eu nem precisava ver como ela ficaria vestida com a jaqueta, simplesmente todas as blogueiras de street style a perseguiriam com suas lentes se a vissem caminhando com aquela displicência de quem nasceu para desfilar com uma jaqueta de couro vermelha no meio da tarde de uma segunda-feira a caminho de um encontro com algum amante libanês (não parecia uma mulher que estava indo à missa). E lá se foi ela portando nas mãos aquela peça vermelha que eu achei incrível, eu que não tenho uma única peça vermelha no guarda-roupa, e indo ao encontro de um fantasioso amante libanês que tampouco faz parte do meu currículo.

O que me impede de tosar o cabelo, fazer uma tatuagem no braço e comprar uma jaqueta vermelha? Nada. Simplesmente acontece de a gente gostar muito de certas coisas, mesmo não tendo impulso suficiente para adotá-las como nossas. É um exercício elevado de apreciação: saúdo quem acorda às 5h da manhã para correr e também quem atravessa a noite dançando – não faço uma coisa nem outra.

Admiro quem tira um ano sabático para meditar num ashram e também quem vai a Nova York de três em três meses. Quem decide não ter filhos e quem tem e ainda adota alguns. Quem coleciona amantes e quem mantém um único e eterno casamento. Quisera eu poder contar com sete vidas para abraçar todos os jeitos de ser e de estar no mundo, mas tendo uma vidinha só, faço as escolhas que melhor me identificam, sem deixar de aplaudir as minhas renúncias. A todas as outras mulheres que não sou – ou que não sou ainda – meu sorriso e uma piscadinha cúmplice.

Marta Medeiros, Zero Hora – 27/04/2014.

 

 

Ninguém sabe onde ela para ou onde se pode encontrar. Há quem diga que não está em nenhum lugar e que simplesmente acontece. E, no entanto, em algum sítio há de estar. Não lhes parece?
Às vezes está tão perto, tão à vista, que nos passa despercebida, e outras tão distante, tão escondida nesse tal lugar, que uma vida não chega para lá chegar.
Há os que pensam que só a encontramos se não a procurarmos. Nem pensarmos nisso. E os que estão convencidos de que é preciso procurá-la sem cessar.
Por isso, ouçam agora a história do Sr. Pascoal, que vivia desde menino numa aldeia pequenina, à beira-mar. Era um belo sítio para se morar, já se vê, e ele sentia-se bem, mas faltava-lhe qualquer coisa, não sabia o quê. E essa qualquer coisa, achava ele, era a felicidade.
Fez então as malas e saiu de casa à procura dela. Foi de aldeia em aldeia, de vila em vila, de cidade em cidade, e encontrou tudo o que procurava, tudo menos a felicidade.
“Isto é bonito” dizia ele para ninguém. “Mas ainda não é aqui que me sinto bem”.
Decidiu então partir para mais longe. E foi assim que deu várias voltas ao mundo. E viu coisas de pasmar, a felicidade é que não.
Mesmo assim, continuou a procurá-la, viajando sem parar, sim, porque em algum sítio ela havia de estar.
E estaria? Já vamos saber. O tempo, como sabem, passa a correr e, um dia, o Sr. Pascoal percebeu que estava a envelhecer. Tinha os cabelos brancos, as pernas fracas, os ossos doridos, a vista cansada. Andara muito nesse dia e parou em frente de uma velha casa abandonada.
Os vidros das janelas estavam partidos, a poeira invadia quartos e salas, o  mato cobria o jardim.
Ele olhou aquilo e pensou assim:
“Nesta casa, desprezada e sem dono, vou construir a minha felicidade.”
E consertou o telhado, pôs vidros nas janelas, pintou as paredes, cuidou do jardim.
“Agora sim”, pensou ele por fim. “Aqui está um bom sítio para se morar”
Sentou-se então num sofá da sala, em frente à lareira, a descansar.
“Que bem que eu me sinto” disse para si.
E percebeu então que aquela estranha sensação de bem-estar era esse não sei quê que ele tanto procurara: a felicidade. Estava ali.
“Finalmente encontrei-a “, gritou o Sr. Pascoal, muito entusiasmado.
Estava tão contente que se pôs aos saltos e veio para a rua festejar, esquecido já da sua idade. Reparou então que estava na aldeia de onde partira há muitos anos e que aquela casa era a sua própria casa, a mesma que ele abandonara para procurar a felicidade.
Álvaro Magalhães. Onde está a felicidade. 

Todo ano, desde que nasci, no dia 17 de abril, meu aniversário é comemorado. É bom. É gostoso.

Seja em casa com amigos, seja viajando com a família, seja reservando o dia para dar uma sossegada e viver, por opção, o dia do “eu sozinha”, a celebração sempre acontece.

Às vezes planejado, outras vezes deixando acontecer, é sempre um dia para lembrar da minha existência e que aqui estou para realizar um propósito. E que assim seja! Essa ideia me sacode, me acorda e me revigora. Gosto disso!

No último ano, tudo mudou. Isolados em casa, não por opção e sim por preservação da saúde e da vida, comemoramos como pôde ser. E pôde ser muita coisa! Foi um dia de surpresas: amigos e familiares chegando pela telinha para a grande festa. Foi um dia de almoço feito com carinho, de presente e bolo batendo à minha porta como mágica. Foi a festa onde o tempo estava realmente elástico.

Sentimento? Uau! Um misto de alegria e tristeza, momentos de brincar e de chorar, ora esperança ora dúvidas.

Era sonho o que o mundo estava vivendo? Às vezes eu queria acordar do pesadelo. Porém as notícias me mostravam que eu já estava acordada. E, assim, com todos os sentidos despertos, a vida se fez presente ao longo de todo aquele dia. Dia do meu aniversário.

Bem, agora estou aqui, para mais uma celebração. Se havia a esperança e, por que não, a certeza de que dessa vez seria diferente, posso garantir que a única certeza é que as incertezas é que são as nossas certezas nesse momento.

Então, diante da crença de que não vim para esse mundo por acaso, me deixo sacudir e ser acordada para, mais uma vez, viver o meu dia de renascer, sem roteiro e sem programação. Mas abro o coração da minha casa para receber o que de melhor possa chegar. E que esse melhor seja a luz, a determinação e a manutenção da crença de que tenho um propósito, uma missão que, mesmo sem clareza do que seja, é a vida me dando as boas vindas para mais um ciclo que se inicia.

Com a mais profunda gratidão, aceito o convite!

Maria Teresa Guimarães.

 

 

Talvez a gente aprenda, afinal, a demorar a vida mais vezes no que faz coração ser sorriso. A abraçar mais lentamente toda vez que é possível. A encher de beijinhos quem nos provoca ternura. A sair mais frequentemente para passear onde tem flor.

Talvez a gente aprenda, afinal, que precisa de bem menos do que imaginava. Que as verdadeiras urgências são vidas. Que a prioridade é a saúde. Que há variados jeitos de se mostrar presente. Que a gente tem que se cuidar pra cuidar. Que aquela tal pressa era pra quê mesmo? Que há uma linguagem que só os olhos conhecem.

Talvez a gente aprenda, afinal, a se interessar com mais bondade pelo bem-estar dos outros seres. Que estamos todos juntos mesmo na humanidade. Que há vários modos de ajudar mesmo sendo também vulnerável. Que o nosso dom é serviço. Que é possível viver fora do automatismo.

Talvez a gente aprenda, ao final, a ser do nosso jeito de novo.

Ana Jácomo.

 

 

Queridos Meninos

Imaginem, se forem capazes, que estão a ler uma carta a sério, de um amigo a sério, que vocês viram e que parecem ouvir desejar-vos — tal como eu vos desejo de todo o coração — uma Páscoa feliz.

Conhecem aquela sensação deliciosa quando, ao acordarem numa manhã de verão, com o gorjeio dos pássaros e a brisa fresca entrando pela janela aberta, quando, ainda deitados, sonolentos e preguiçosos, veem, como que em sonhos, os ramos verdes das árvores acenando ou as águas ondulando sob a luz doirada? É um prazer muito próximo da melancolia, que nos faz vir as lágrimas aos olhos como um belo quadro ou um poema. E não é a mão terna de uma Mãe que arreda as cortinas? E não é a voz suave de uma Mãe que vos obriga a levantar? A levantar e a esquecer, à luz do dia, os sonhos maus que vos assustaram no meio da escuridão, a levantar e a gozar outro dia feliz, não antes de ajoelharem para agradecer ao Amigo invisível que vos presenteia com a maravilha do Sol?

Estas palavras são do autor de histórias como as de Alice? E parecerá esta carta estranha no meio de um livro em que impera o absurdo? Talvez. Talvez alguns me censurem por misturar coisas alegres e graves; outros sorrirão e acharão esquisito que se fale de coisas sérias sem ser na igreja, aos domingos. Mas creio — não, tenho a certeza! — que algumas crianças o lerão com amor e com o mesmo espírito que me inspirou a escrevê-lo.

É que não acredito que Deus queira que se divida a vida em duas metades… Que tenhamos uma expressão grave aos domingos e que achemos despropositado o simples facto de O mencionarmos durante o resto da semana. Acham que ele só gosta de ver pessoas ajoelhadas e de ouvir orações? E que Ele também não gosta de ver os cordeirinhos a saltar ao sol e de ouvir as vozes alegres das crianças rolando no feno? Decerto os seus risos inocentes são tão agradáveis aos Seus ouvidos como o mais grandioso dos cânticos que alguma vez o fervor religioso fez ressoar numa catedral.

E se eu acrescentei alguma coisa aquela reserva de diversão inocente e saudável que existe nos livros infantis, de que tanto gosto, espero poder sempre encará-la sem vergonha nem tristeza (ao contrário com o que acontece com muitos episódios da vida que recordamos!) quando chegar a minha vez de caminhar pelo vale das sombras.

Este sol de Páscoa nascerá sobre vós, queridos meninos, fazendo-vos sentir «a vida em todos os poros» e desejar ir ao encontro do ar fresco da manhã… E muitos dias de Páscoa se passarão antes que o vosso cabelo embranqueça e o vosso corpo fatigado procure a luz do Sol para se aquecer… Mas, mesmo agora, é reconfortante pensar nessa grande manhã em que o «Sol da Justiça nos trará a consolação nas suas asas».

É claro que a vossa alegria não deverá ser menor pelo facto de um dia virem a conhecer uma aurora mais clara do que esta… Quando aos vossos olhos surgirem paisagens mais belas do que o aceno das árvores ou o ondular das águas… Quando as mãos dos anjos vos correrem as cortinas e sons mais suaves do que a voz da vossa querida Mãe vos acordarem para um dia novo e glorioso… E quando todas as tristezas, todos os pecados, que ensombraram a vida neste mundo forem esquecidos como os sonhos de uma noite que já pertence ao passado!

O vosso bom amigo
Lewis CARROLL
Páscoa, 1876

 

Este texto, publicado em 23 de março de 2018, continua atual. Vale, portanto, a lembrança

Menos brilhante, mais alaranjada, menos fervilhante, mais sossegada. É assim que minha alma se apresenta neste outono, ainda com resquícios de verão, porém na serenidade de quem aguarda a promessa de vibrações mais acolhedoras e ativas, ainda que em compasso de espera. Minha alma sabe que o novo, após o recolhimento do inverno, está por vir.

Em tempo de semeadura para alimentar e fortificar, minha alma com sua sabedoria, se manifesta sacudindo a terra com a esperança da renovação tão necessária para a qualidade da nossa luz.

Nossa alma outonal sabe que sabe.

Só nos resta deixar que ela extrapole as fronteiras do obscurecimento, que tanto nos deixam cegos, surdos e mudos, embotando a nossa intuição.

Escutar a alma, sentir o coração, abrir os poros para que nossa essência nos seja apresentada, é o caminho que possibilita o contato com as energias desse outono que, chegando de mansinho, nos conquista e nos prepara para a reconstrução de uma nova existência.

Maria Teresa Guimarães

 

 

Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.

A frase do título é de Adélia Prado: “O que a memória ama, fica eterno”. Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

A capacidade de se emocionar vem daí: quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira. Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você_ foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de uma fossa_ e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece calendários, não caminha com as estações; alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, aquela época.

Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos – já adultos ou até idosos – e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos. Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos cheios de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ou 30 anos. Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos… mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.

A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais. Nem eles percebem que crescemos. Seremos sempre “as crianças”, não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Pra eles a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite… ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou.

Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor. Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando. Como disse na introdução do blog, somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos: somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.

Do mesmo modo, somos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.

Fabíola Simões.

 

Na realidade, no momento atual e global, muitos de nós deixamos simplesmente de querer saber do futuro. E parece recíproco: o futuro também não quer saber de nós.

Estamos tão entretidos em sobreviver, que nos consumimos no presente imediato.

Para uma grande maioria, o porvir tornou-se um luxo. Fazer planos a longo prazo é uma ousadia a que, a grande maioria, foi perdendo direito. Fomos exilados não de um lugar. Fomos exilados da atualidade. E por inerência, fomos expulsos do futuro.

Mia Couto, “E se Obama fosse africano?”

Todos precisamos de afetos. Os abraços são como o sol, aquecem-nos e dão sentido às nossas vidas. Um abraço é a linguagem de quem gosta e, principalmente, de quem sente.

Quase sempre o abraço é poesia em silêncio. Importa, por isso, ensaiar a linguagem da amizade e do amor. Se estamos longe das pessoas que amamos, a falta de abraços é como a sede.

A nossa imaginação pode colocar hipopótamos na lua, mas não devemos esquecer aqueles que, todos os dias, nos fazem felizes. Às vezes, basta um abraço.

João Vilhena.