1) ANDO PELA RUA.

Há um buraco fundo na calçada
Eu caio
Estou perdido…sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2) ANDO PELA MESMA RUA.

Há um buraco fundo na calçada
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3) ANDO PELA MESMA RUA.

Há um buraco fundo na calçada
Vejo que ele ali está
Ainda assim caio… é um hábito.
Meus olhos se abrem
Sei onde estou
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4) ANDO PELA MESMA RUA.

Há um buraco fundo na calçada
Dou a volta.

5) ANDO POR OUTRA RUA.

Portia Nelson, escritora norte-americana.
Poema citado em O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Lama Sogyal Rinpoche.

 

Descansar no ventre, na paz do silêncio gestacional. Mergulhar no processo da criação da vida, tendo a certeza de que esse é o lugar do impulso para prosseguirmos rumo à evolução do ser.

Somos luz até aqui. Somos energia pura em essência para vivermos em harmonia com tudo aquilo que nos permite voar, observar, aterrissar e caminhar em beleza, em suavidade e compaixão.

Chegamos para alguma coisa. Nos assentamos para acolher, servir e aprender a arte das trocas naturalmente generosas. Chegamos e aqui estamos em mais uma jornada de sermos paz, amor, alegria e esperança.

Chegamos e precisamos nos manter na rota que nos levará para o bem maior. Chegamos para ser, estar, fazer e oferecer.

Nesse caminho, nos doamos e, ao mesmo tempo, exercitamos a arte do auto amor e do bem querer.

Que a luz da nossa essência original se mantenha como consciência da força que nos move para promover as transformações necessárias a uma vida com dignidade e inteireza.

Luz a todos!

Maria Teresa Guimarães.

 

A Páscoa nos aguarda!
Encontramos tempo para viver, conscientemente, esses quarenta dias de silenciar e aquietar?
Talvez nem tenhamos nos dado conta do significado da Quaresma: uma preparação espiritual para a celebração da vida, do renascer e do amor. Porém, sem culpa e sem nos penitenciar. O que passou, passou.

Parar, aquietar, serenar e respirar as energias mais sutis independe de data e de convenções. Ser acolhedor de si próprio, estar no silenciar da mente e se abraçar no caminho que nos conduz ao eu supremo, deve ser tarefa diária, retirando-se em alguns momentos do burburinho mundano. Burburinho esse do qual nos apossamos e recriamos em nosso mundo mental. E que, uma vez tendo-o adotado em nossa vida, torna-se padrão comum e, sem que percebamos, nos alimenta como um vício do qual nem sequer pensamos em nos livrar.

Sentindo a Páscoa como um renovar a cada dia, podemos também viver o significado da Quaresma em todos os dias de nossa vida.

Sentindo a ação de “quaresmar” no dia a dia, colocando nesse agir a nossa consciência de nos aprimorar e de nos elevar com sentimentos e pensamentos mais nobres, teremos a oportunidade de vivermos, com mais graça, a vida como um bem precioso e generoso.

Que assim seja na sua vida, na nossa vida!
Que assim seja no nosso caminhar para o bem maior!

Uma Feliz Páscoa para você!
Uma Feliz Páscoa para todos nós!
Alegria nos nossos “renasceres”!

Maria Teresa Guimarães.

 

 

…era como se aquele filho estivesse sendo puxado de dentro de mim por mãos muito habilidosas. Assim que fiquei sozinha e com mais liberdade para abrir bem as pernas e aliviar a pressão, senti a cabecinha querendo sair… Eu me sentia leve e tranquila, como se tivesse fumado liamba, mas era muito mais forte que isso. Era como se uma pessoa estivesse cantando uma música muito bonita e suave ao mesmo tempo em que me embalava, fazendo com que eu ficasse com sono, o mesmo efeito causado pelo cheiro da minha mãe ou da minha avó. Comecei a sorrir…

Fala de Kehinde, protagonista do livro Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves.

 

Não é sobre sobrecarga de informação; é sobre falha na filtragem!
C. Shirky.

A questão não é a sobrecarga, mas a incapacidade que temos de filtrar e delegar. A decisão do que “não fazer” é talvez mais importante que a do que fazer. “Não fazer” é o contexto de todo “fazer”, seja na ação ou na fala que é uma ação invisível. A passividade se aplica apenas quando a “não ação” é irrefletida ou reativa. “Não agir” demanda coragem e a força da auto restrição. Não assumir, por sua vez, demanda estratégia e a faculdade do foco. Prolífera a ilusão de que carregar e acumular nos emperra de controle e mando. A potência está no oposto, na leveza e na ausência de passivos. A inteligência é uma competência de filtragem e não de acervo, de interação e não de armazenamento. Comece por eliminar o prescindível e o redundante e vai conhecer a eficácia e a impulsão de estar leve.

Nilton Bonder.

 

Era uma vez uma senhora tão direita, tão composta, tão solene, tão emproada, que parecia ter engolido uma grande, enorme colher de pau.
A Senhora Colher de Pau achava que o mundo lhe devia agradecer por existir.
A Senhora Colher de Pau queria palmas, ovações e caras de espanto à sua passagem.
A Senhora Colher de Pau subia às montanhas mais altas para ouvir o eco das palavras que proferia “Sou maravilhosa, soberbaaaa Sou maravilhosa, soberbaaaa..”
A Senhora Colher de Pau não andava, marchava que nem um soldado.
A Senhora Colher de Pau não se dobrava, fazia flique -flaque para não se amachucar.
A Senhora Colher de Pau não falava, articulava e sempre em francês.
A Senhora Colher de Pau não abraçava, enlaçava, mas com grande e desagradável distância.
A Senhora Colher de Pau era uma infeliz… pois não se despenteava, não se lambuzava, não se ria até doer a barriga, não amava, nem beijava.
São assim, as Senhoras Colher de Pau deste mundo.

Vanda Maria Furtado Marques.

 

– A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca.
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu.
Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.
Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.
Pisca e mama;
Pisca e anda;
Pisca e brinca;
Pisca e estuda;
Pisca e ama;
Pisca e cria filhos;
Pisca e geme os reumatismos;
Por fim, pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre – perguntou o Visconde.
– Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?

Monteiro Lobato, trecho de “Memórias de Emilia”.
A primeira edição do livro é de 1936. Interessante que é a boneca que ensina ao sabichão Visconde de Sabugosa!

 

Quanto menor for a personalidade, tanto mais imprecisa e inconsciente se torna a voz, até confundir-se com a sociedade, sem poder distinguir-se dela, privando-se da própria totalidade para diluir-se na totalidade do grupo. A voz interior é substituída pela voz do grupo social e de suas convenções; em lugar da designação aparecem as necessidades da coletividade. A não poucos sucede que, mesmo estando nesse estado social inconsciente, são chamados por uma voz individual e assim começam a distinguir-se dos outros e a deparar com problemas a respeito dos quais os outros nada sabem. Em geral é impossível para esse indivíduo explicar às outras pessoas o que lhe aconteceu, pois existe como que um muro de fortíssimos preconceitos a impedir a compreensão.

C. G. Jung, Obra Completa, v. XVII, § 302

 

Não doem as costas,
doem as cargas.
Não doem os olhos,
dói a injustiça.
Não dói o estômago,
dói o que a alma não digere.
Não dói o fígado,
dói a raiva contida.
Não dói a cabeça,
doem os pensamentos.
Não dói a garganta,
dói o que não se expressa
ou se exprime com raiva.
Não dói o coração, dói o amor.
E é precisamente ele, o amor mesmo,
que contém o mais poderoso remédio.

– Palavras de uma anciã curandeira da alma.

Autor desconhecido.

 

Assim como o mar pode não estar para peixe, também o mundo não está para carnaval. O mundo já é um Carnaval. E se assim é, só nos resta relaxar, cair na nossa folia interna, vestir a nossa melhor fantasia e assistir de camarote o bloco da vida passar.

Carnaval, dias de viajar e descansar. Ou, se preferir, dias de se agitar na onda que nos leva no balanço da alegria e da brincadeira.

Qualquer que seja a maneira de vivermos este momento, que tenha sabor doce, suave e até mesmo um toque picante para fazer levantar os ânimos que, para muitos, ficaram minguados com o peso de uma rotina, talvez muito mais imposta do que escolhida.

Na verdade somos “carnaval” sempre, com nossas baguncinhas internas, nossos conflitos e rabugices existenciais. Somos carnavalescos e foliões da vida, do dia a dia, de nós mesmos e do mundo. E, como bons foliões, podemos ter o jogo de cintura que vibra, balança… e vai que despenca?… Aí ajeitamos a cintura, acertamos o passo e seguimos em direção ao equilíbrio que nos liberta das batidas descompassadas dos tambores desencontrados.

Agora, com o jogo de cintura acertado no bloco da vida, podemos ser “carnaval” na comissão de frente, fazendo retumbar o som do surdo que nos desperta.

Vamos cair na folia! Seja ela qual for. Mas que seja dos tambores que se olham, se reconhecem, se encontram, criando ritmo, harmonia e melodia de nossa autoria!

Bom Carnaval a todos!

Maria Teresa Guimarães.