Tussa, tussa, tussa mesmo! Tussa todos os engasgos que você já não suporta mais! O mundo está engasgado e você é só mais um nesse planeta que, com o seu tossir, expressa os entalos na garganta. Tussa bravamente! Pigarreie com a força de quem quer expurgar os desagrados, as frustrações, as dores da alma! Isso, assim mesmo! Agora chegou o momento de desengasgar, de permitir que o simples ato de respirar abra os canais da dor, deixando o ar fluir e desatar os nós que te sufocaram até agora. Tire a corda do pescoço! Inspire e expire com o sentimento de quem resgatou o direito à vida! Renasça com a consciência da luz que te trouxe até aqui. É você! Sou eu! Somos nós com sede de alma!
Maria Teresa Guimarães.
Pensando cá com meus botões
desabotôo em versos minh’ alma.
Ser avó não é uma privacidade.
É nota musical “sustenida”
no fio longo
da vida, num
“crescendo”
que reverbera
em poderosa universalidade.
Desabotoa as
vestes do tempo
mistura presente
futuro e passado
em acordes de
amor perfeito
em mágica sonoridade.
E assim…olho
pra minha neta
com olhar de vó
e poeta
em busca da rima perfeita
sem subterfúgios
e sem cerimônia.
E ela revela em silêncio
que tem nome
poesia e sobrenome!
E que basta eu chamá-la baixinho
que de pronto ela me responde:
Estou aqui! Sou sua neta, sou Antonia!
Marta Manhães de Andrade, Niteroi 2026.
Desconfie de toda espiritualidade que afasta o sagrado da terra e o coloca tão distante que deixa de responder pelos gestos humanos. Quando a transcendência serve apenas para justificar o presente, em vez de transformá-lo, a fé pode tornar-se um álibi para a indiferença. O verdadeiro encontro com o divino não suspende a responsabilidade pelo mundo; ao contrário, torna cada palavra, escolha e encontro mais sagrados justamente porque acontecem aqui.
Nilton Bonder.
O suspiro branco que você exalou
Agora pega carona no vento lentamente
Para as nuvens que flutuam no céu
Pouco a pouco vai se apagando
Do alto e do meio do céu
Nuvens brancas se esticam
Para inalar o teu suspiro
E continuam a flutuar
Parece uma coisa de um passado distante
Nuvens passam por cima do rio
Evitando o reflexo do sol
O cão dorme embaixo do beiral
As lembranças também, no meio daquele céu
Pouco a pouco vão se apagando
Do outro lado deste céu
Tem mais um céu azul
Dentro do céu que não tem ninguém
As nuvens flutuam
Tsunekichi Suzuki, música de abertura de Midnight Diner: Tokyo Stories. Tradução de Piti Koshimura.
Há uma coisa que ninguém te diz em voz alta: a realidade não é um filme com roteiro fechado. É um feed em constante atualização, cheio de cortes, filtros e momentos que parecem perfeitos só porque alguém escolheu mostrá-los. E tu? Tu és o autor das tuas cenas, mesmo quando te sentes figurante.
A pressão vem em ondas — escola, trabalho, likes, expectativas da família, aquela voz interior que compara tudo. Respira. Não é fraqueza sentir medo ou não saber o próximo passo. É sinal de que estás a crescer. Crescer dói, mas também abre portas que nem sabias que existiam. O truque é aprender a andar com as portas abertas, mesmo quando o vento bate forte.
O mundo pede que sejas produtivo, que tenhas plano, que escolhas cedo. Mas a vida real é feita de tentativas, de erros que ensinam mais do que acertos. Experimenta. Falha. Levanta. Faz as perguntas que ninguém te ensinou a fazer: o que te aquece o peito? O que te tira o sono de um bom sentido? O que farias se soubesses que não vais falhar? As respostas não vêm todas de uma vez. Vêm em bocadinhos, em conversas à noite, em músicas que repetes até entenderes a letra.
Não te deixes reduzir a rótulos. És mais que notas, mais que profissão, mais que a tua conta. A tua identidade é um mosaico em construção e está tudo bem mudar peças. Amizades vão e vêm; alguns amores ficam, outros ensinam. Aprende a despedir-te com gratidão e a receber com curiosidade. A vida é um combo de perdas e ganhos, e cada perda traz um espaço novo para algo teu crescer.
Cuida da tua cabeça como cuidas do teu telemóvel: atualiza, limpa, desliga quando precisa. Pede ajuda sem vergonha. Falar não é fraqueza, é estratégia. E lembra-te: a tua velocidade não define o teu valor. Há quem corra e há quem caminhe; ambos chegam a sítios diferentes, ambos chegam.
Se queres mudar o mundo, começa por mudar a tua rotina pequena. Pequenas revoluções diárias, levantar mais cedo, dizer menos sim por obrigação, aprender uma coisa nova por semana, acumulam-se e viram movimento. O futuro não é um destino distante; é o resultado das tuas escolhas de hoje.
No fim, o que fica são as histórias que contaste a ti mesmo e aos outros. Conta-as com coragem. Faz com que valha a pena partilhar. Porque um texto que toca é um texto que se espalha. E a tua vida pode ser esse texto.
Filipe de Luar, via Almas Leves.
Por vezes, vejo-me obrigado a ter deitados alguns livros nas minhas estantes. A posição está longe do ideal.
Para tirar um livro, tenho frequentemente de tirar uma pilha deles.
Os livros nascem das árvores, e, como elas, gostam de verticalidade: estar em pé, de pé. São objetos verticais.
Aliás, como a vida. Descansamos deitados, mas vivemos contrariando a gravidade, numa luta constante. Ser vertical é um desígnio, enquanto desmaiar, cair, morrer, não exige esforço, e simplesmente deixar que a Natureza faça o seu trabalho de esmaecimento, de transformar catedrais em areia e nunca o contrário.
Mas nós, animais, árvores e livros, tendemos a contrariar esse destino: erguemo-nos. Levantamo-nos. Esse movimento quotidiano, tão simples, define a vida.
E, seguindo o exemplo dos livros nas estantes, devíamos exaltar esse permanecer em pé, lado a lado.
Afonso Cruz, O Vício dos Livros II, via Mala d’estórias.
É no inverno que tiramos os agasalhos das gavetas, dos armários e dos baús. É no inverno que nos permitimos a dose mais generosa do vinho. A dose que celebra o dia quando ele dá espaço para a noite que chega. É no inverno que nos acolhemos com o chá que aquece o corpo e a alma. É também no inverno que os caldos quentinhos, com sabor de vó, trazem aconchego para o coração.
E que no inverno, estação de nos recolher, possamos fechar os olhos, inspirar o calor da respiração, relaxar o corpo e olhar para dentro, para o âmago do nosso ser. É nesse momento que fazemos o encontro com a quietude que é real na essência e no espírito. É nesse momento que validamos o ser verdadeiro que somos. É nesse estado de vigília interna que adormecemos para fora e nos ligamos ao que realmente nos pertence e nos ampara.
Que nesse inverno você se abrace, se acalore e se cuide com amorosidade!
Para nós, um inverno de agasalhos de ternura, de gentileza e de paz!
Maria Teresa Guimarães.
Há dores que não desaparecem porque passam de uma geração para outra. Quando evitamos sentir uma ferida, ela não se encerra em nós; segue adiante, herdada em medos, silêncios e ressentimentos. Muitas vezes carregamos pesos que nasceram em histórias anteriores à nossa. O que não é vivido retorna, pedindo espaço. Por isso, a dor tem uma exigência própria: ser sentida.
Quando alguém encontra coragem para acolhê-la, interrompe uma corrente antiga e transforma um legado de sofrimento em uma possibilidade de cura.
Nilton Bonder
Todo conteúdo que é marginalizado, deixado de lado, em algum momento vai cobrar seu direito à luz, e é nesse ponto que a depressão deve ser vista como uma oportunidade de crescimento, como uma possibilidade de viver um processo de individuação consciente, pleno e rico de descobertas.
Se não houver coragem para pensar sobre isso e mergulhar, com o passar do tempo as paredes começam a se mover e a fecharem-se, impedindo a expansão. É como afirma Solomon (2002, p. 18) em seu relato:
“Eu sabia que o sol estava nascendo e se pondo, mas pouco de sua luz chegava a mim. Sentia-me afundando sob algo mais forte do que eu. Primeiro não conseguia usar os tornozelos, depois não conseguia controlar os joelhos e a seguir minha cintura começou a se vergar sob o peso do esforço, e então os ombros se viraram para dentro. No final, eu estava compactado e fetal, esvaziado por essa coisa que me esmagava sem me abraçar”.
Joanna de Ângelis.
Não é o bom comportamento, mas a atividade lúdica que é a artéria central, o cerne, o bulbo cerebral da vida criativa. O impulso para o lúdico é instintivo. Sem o lúdico, não há vida criativa. Com o comportamento restrito ao “bom”, não há vida criativa. Quando estamos sentadas sem nos mexer, não há vida criativa. Quando falamos, pensamos e agimos apenas com modéstia, não há vida criativa. Qualquer grupo, sociedade, instituição ou organização que incentive as mulheres a desprezar o que for excêntrico; a suspeitar do que for novo e incomum; a evitar o que for inovador, vital, veemente; a despersonalizar o que lhe for característico, estará à procura de uma cultura de mulheres mortas.
Clarissa Pinkola Estés.