Por vezes, vejo-me obrigado a ter deitados alguns livros nas minhas estantes. A posição está longe do ideal.
Para tirar um livro, tenho frequentemente de tirar uma pilha deles.
Os livros nascem das árvores, e, como elas, gostam de verticalidade: estar em pé, de pé. São objetos verticais.
Aliás, como a vida. Descansamos deitados, mas vivemos contrariando a gravidade, numa luta constante. Ser vertical é um desígnio, enquanto desmaiar, cair, morrer, não exige esforço, e simplesmente deixar que a Natureza faça o seu trabalho de esmaecimento, de transformar catedrais em areia e nunca o contrário.
Mas nós, animais, árvores e livros, tendemos a contrariar esse destino: erguemo-nos. Levantamo-nos. Esse movimento quotidiano, tão simples, define a vida.
E, seguindo o exemplo dos livros nas estantes, devíamos exaltar esse permanecer em pé, lado a lado.
Afonso Cruz, O Vício dos Livros II, via Mala d’estórias.
É no inverno que tiramos os agasalhos das gavetas, dos armários e dos baús. É no inverno que nos permitimos a dose mais generosa do vinho. A dose que celebra o dia quando ele dá espaço para a noite que chega. É no inverno que nos acolhemos com o chá que aquece o corpo e a alma. É também no inverno que os caldos quentinhos, com sabor de vó, trazem aconchego para o coração.
E que no inverno, estação de nos recolher, possamos fechar os olhos, inspirar o calor da respiração, relaxar o corpo e olhar para dentro, para o âmago do nosso ser. É nesse momento que fazemos o encontro com a quietude que é real na essência e no espírito. É nesse momento que validamos o ser verdadeiro que somos. É nesse estado de vigília interna que adormecemos para fora e nos ligamos ao que realmente nos pertence e nos ampara.
Que nesse inverno você se abrace, se acalore e se cuide com amorosidade!
Para nós, um inverno de agasalhos de ternura, de gentileza e de paz!
Maria Teresa Guimarães.
Há dores que não desaparecem porque passam de uma geração para outra. Quando evitamos sentir uma ferida, ela não se encerra em nós; segue adiante, herdada em medos, silêncios e ressentimentos. Muitas vezes carregamos pesos que nasceram em histórias anteriores à nossa. O que não é vivido retorna, pedindo espaço. Por isso, a dor tem uma exigência própria: ser sentida.
Quando alguém encontra coragem para acolhê-la, interrompe uma corrente antiga e transforma um legado de sofrimento em uma possibilidade de cura.
Nilton Bonder
Todo conteúdo que é marginalizado, deixado de lado, em algum momento vai cobrar seu direito à luz, e é nesse ponto que a depressão deve ser vista como uma oportunidade de crescimento, como uma possibilidade de viver um processo de individuação consciente, pleno e rico de descobertas.
Se não houver coragem para pensar sobre isso e mergulhar, com o passar do tempo as paredes começam a se mover e a fecharem-se, impedindo a expansão. É como afirma Solomon (2002, p. 18) em seu relato:
“Eu sabia que o sol estava nascendo e se pondo, mas pouco de sua luz chegava a mim. Sentia-me afundando sob algo mais forte do que eu. Primeiro não conseguia usar os tornozelos, depois não conseguia controlar os joelhos e a seguir minha cintura começou a se vergar sob o peso do esforço, e então os ombros se viraram para dentro. No final, eu estava compactado e fetal, esvaziado por essa coisa que me esmagava sem me abraçar”.
Joanna de Ângelis.
Não é o bom comportamento, mas a atividade lúdica que é a artéria central, o cerne, o bulbo cerebral da vida criativa. O impulso para o lúdico é instintivo. Sem o lúdico, não há vida criativa. Com o comportamento restrito ao “bom”, não há vida criativa. Quando estamos sentadas sem nos mexer, não há vida criativa. Quando falamos, pensamos e agimos apenas com modéstia, não há vida criativa. Qualquer grupo, sociedade, instituição ou organização que incentive as mulheres a desprezar o que for excêntrico; a suspeitar do que for novo e incomum; a evitar o que for inovador, vital, veemente; a despersonalizar o que lhe for característico, estará à procura de uma cultura de mulheres mortas.
Clarissa Pinkola Estés.
Há uma parte de mim que só existe quando ninguém está a ver, quando não há testemunhas, quando não há expectativas, quando não há uma necessidade de ser interessante, útil, forte ou desejável. É aí que descubro que muito do que eu chamava de identidade era, afinal, uma resposta ao olhar do outro, à espera do outro, à validação do outro. Quando ninguém me olha, não há espelhos, e sem espelhos, sobra o que é. Ou o que resta. E isso desinstala. Durante anos, organizei-me para fora, afinei-me para ser lido, escolhido, confirmado. Aprendi a existir em função do olhar, não da presença. E chamava a isso de ser. Hoje, percebo que era, muitas vezes, apenas para parecer bem. Quando ninguém me olha, não há palco, não há personagens, não há histórias. Há apenas silêncio. E o silêncio não valida, não devolve, não sustenta nenhuma imagem, mas, pelo contrário, obriga a ficar. Quem sou eu quando ninguém me olha? Não sou o que faço, nem o que resolvo, nem o que aguento. Sou aquilo que fica quando tudo isso cai. E, às vezes, o que fica é estranho, porque nunca me deixei existir sem utilidade. Há um desconforto subtil em não ser necessário, uma vertigem pequena em não ser chamado. É aí que percebo o quanto usei o olhar dos outros como chão. Hoje, ficar sem ninguém a olhar-me é uma aprendizagem. Ficar sem reflexo é uma reparação. Não é uma perda, mas uma reeducação. Estou a aprender a existir sem ser visto, a valorizar-me sem ser desejado, a permanecer sem ser escolhido, a ser sem estar a tentar ser. Quem sou eu quando ninguém me olha? Ainda não sei. E, pela primeira vez, isso já não me assusta.
José Micard Teixeira, via Almas Leves.
Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração:
Pois os olhos são os espiões do coração.
E vão investigando
O que agradaria a este possuir.
E quando entram em pleno acordo
E, firmes, os três em um só se harmonizam,
Nesse instante nasce o amor perfeito, nasce
Daquilo que os olhos tornaram bem-vindo ao coração.
O amor não pode nascer nem ter início senão
Por esse movimento originado do pendor natural.
Pela graça e o comando
Dos três, e do prazer deles,
Nasce o amor, cuja clara esperança
Segue dando conforto aos seus amigos.
Pois, como sabem todos os amantes
Verdadeiros, o amor é bondade perfeita,
Oriunda – ninguém duvida – do coração e dos olhos.
Os olhos o fazem florescer; o coração o amadurece:
Amor, fruto da semente pelos três plantada.
Giraut de Bornelh, c. 1138-1215.
Mãe é aquela que se preocupa com a gente a vida toda… mesmo quando viramos “gente grande”
A dor de uma mãe de filhos adultos
é uma dor especial.
Ela não grita. Não chora em público.
É uma dor silenciosa, profunda e contida.
que se esconde nas orações diárias,
em pensamentos noturnos,
em um suspiro silencioso enquanto toma uma xícara de chá na cozinha.
É uma dor que aparece quando
seus filhos cresceram,
tomaram o seu próprio caminho,
fazem suas próprias escolhas, cometem seus próprios erros.
Uma mãe gostaria de correr atrás deles,
segurar-lhes de mãos dadas novamente como quando eram pequenos,
protegê-los do mundo, da dor, das escolhas erradas.
Eu gostaria de gritar:
“Para! Eu já passei por isso!”
Mas… Não pode.
Porque ele já não é um menino que você pode esconder debaixo da sua asa.
Ele é um adulto, com o seu próprio caminho, o seu próprio destino,
seu próprio coração aprendendo através de suas próprias feridas.
E essa é a parte mais difícil:
permitir que seu filho viva a vida dele.
Permitir que ele caia e se levante, erre e aprenda.
Não interferir quando você quer gritar.
Não aconselhar quando você deseja guiar.
Apenas esperar. Esteja presente.
Reze em silêncio.
Enviar amor através dos pensamentos
e esperar que chegue até eles.
Acreditar que tudo vai ficar bem.
Porque uma mãe,
embora seus filhos cresçam,
sempre conserva o mais importante:
amar e rezar por eles todos os dias.
Via @casa.rosa
Esta menina tão pequenina
Quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
Mas sabe ficar de ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si,
Mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta e nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu .
Esta menina
Tão pequenina
Quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como
as outras crianças.
Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo.
As BOAS LEITURAS são tão necessárias para a formação do espírito da criança, como o bom alimento é indispensável ao seu desenvolvimento físico.
A história de toda a humanidade está perpetuada nos livros. Todo o bem que já foi feito, toda a perfeição que já foi alcançada, e até aqueles grandes erros que já foram cometidos no passado; toda a beleza e poesia; o toque mágico da vida, tudo isto está gravado nestes pequenos sinais negros que cortam as páginas dos livros. Esta herança tem sido transmitida de geração em geração a fim de que as crianças possam, quando chegada a sua vez, imprimir nas suas próprias vidas as mais preciosas experiências dos que as precederam. Os bons livros são, portanto, o mais caro legado para a infância e nenhuma criança pode dele ser espoliada, sem deixar de, com isso, sofrer graves prejuízos espirituais.
Ângelo Patri, Coleção Mundo da Criança, Vol. 1, 1954.